Artigos › 04/08/2020

Música e espiritualidade

Quando os acordes dirigidos a Deus estabelecem um relacionamento de elevação ao sagrado

 

Quem nunca ouviu falar que quem canta reza duas vezes? Com esta frase, introduzo o tema do artigo desta edição: a música a serviço da espiritualidade, como um instrumento de conexão com o sagrado, com o divino, e, por que não dizer, como um elo com Deus. A musicóloga e psicóloga suíça Maria Spychiger afirma que música e religião têm a mesma origem: “ambas desencadeiam sentimentos difíceis de definir com palavras, têm a capacidade de provocar experiências que ultrapassam o dia a dia”, afirma a especialista.

O poder espiritual da música se manifesta desde os primórdios da humanidade. No cristianismo, a arte dos sons sempre obteve um papel importante entre os fiéis. Do canto gregoriano ao gospel, passando pelas cantatas de Johann

Sebastian Bach, que eram muito famosas na época em que foram compostas e executadas, a música encontra uma linguagem própria para o lamento e o júbilo, a meditação e o êxtase.

E para me ajudar a tratar do tema, convoquei meu amigo e conterrâneo Leandro Har Cardoso, organista e regente de música sacra da Igreja Santa Cecília de Porto Alegre. Ele revela que desde pequeno se fascinava com as pinturas e imagens das igrejas e que, a partir dessa experiência, sentiu-se chamado a viver uma espiritualidade cristã.

Ao ouvir o antigo órgão da Igreja Matriz de Santana do Livramento pela primeira vez despertou para a vocação de músico, ficando interessado em aprender a tocar. Seu pai, Luís Cardoso, é um conhecido violonista de música nativista no Estado e outros familiares também possuem vocação musical, mas foi na música sacra que ele encontrou um propósito de vida.

Outra profissão do meu amigo organista: ele constrói os próprios órgãos da igreja; aprendeu com outros organeiros e desenvolveu técnicas próprias. Desta forma, ele resguarda as características sonoras deste tipo de instrumento e perpetua essa cultura musical muitas vezes esquecida pela sociedade, cada vez mais seduzida pelos adventos tecnológicos.

Construindo órgãos

Eu, assim como o Leandro e muitas outras pessoas, nos sentimos conectados com Deus quando cantamos ou ouvimos uma composição sacra, letra e melodia que evocam o sagrado. Versos que narram a trajetória de Jesus, salmos do Antigo Testamento, enfim, são muitos os temas que levam os ensinamentos de Cristo e que promovem reflexões sobre o que está ensinado.

Algumas pessoas questionam qual a razão da música religiosa ser diferente da música profana. Para entender melhor este ponto, considero importante entendermos o que significa a palavra “sagrado”. Este termo, que deriva do latim sacratu, é um adjetivo que designa tudo que é importante e inerente a Deus, que seja especial, puro e de devoção. E é apoiado nesse conceito que a música religiosa se edifica.

O que remete a Deus é especial, está separado do restante, tem suas características próprias e condizente com a essência divina. Por essa razão, os cantos que são executados nos ritos religiosos, a exemplo das missas, devem seguir aspectos litúrgicos que estejam condizentes com o protocolo missal. Não dá para ter um canto de ato penitencial em que a letra não fale em pedir perdão pelos pecados, porque se fosse de outra forma, não haveria sentido em executá-lo.

Leandro defende que a música é completamente transcendente, um idioma universal. Diferente dos demais idiomas, que possuem variantes em sua estrutura. Ela é percebida da mesma maneira pelo ser humano em qualquer parte do mundo, e esta emissão sonora que conecta com Deus.

Ele ressalta que uma pessoa pode participar da missa sem necessariamente exercer uma ação física e interativa durante o rito. Ela pode até não cantar junto, não responder em voz alta algum trecho de leitura coletiva, mas se ela estiver em oração, ainda que em silêncio, concentrada na essência do que está sendo rezado, ela está mais conectada a Deus do que qualquer outro que esteja apenas focado em cumprir alguma tarefa para que a missa ocorra.

Nós, brasileiros, temos como característica de povo, o gosto por misturar tudo, e isso me leva a mencionar que na música nacional, a religiosidade é um tema constante nas composições. Sendo o Brasil o país mais católico do mundo (com 172,2 milhões de fiéis, segundo o Anuarium Statisticum Ecclesiae 2015, do Vaticano), é muito comum o uso de temas relacionados a esta fé na música popular.

Um dos maiores e clássicos exemplos é o cantor Roberto Carlos, que executou e divulgou canções para Nossa Senhora e Jesus Cristo. São manifestações de crença que se expressam fora dos templos e também cumprem sua função espiritual de modo mais informal, afinal Jesus já dizia em Mateus (18,20): “porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles.” A música também tem essa função e poder, o de reunir e congregar as pessoas em torno de um objetivo. E remeter a Jesus e seus ensinamentos é uma prática de mais de dois mil anos.

Enfim, a música é uma mídia (meio) fundamental para exercermos e exortarmos nossa fé e requer estudo e conhecimento para que possamos vivê-la de forma efetiva e transcendental.

O autor, Henrique Alons, é colaborador desta Revista, é fotógrafo, relações-públicas e atua com comunicação organizacional. Texto publicado na edição de agosto de 2020. 

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