Lugar na Prateleira › 03/06/2020

Exercícios de Criação

Criar talvez seja a palavra mais bonita que eu conheço. Provavelmente é também o verbo que eu mais conjugo. Não estaria vivo se não fosse o exercício de criar! Desde que me entendo por gente, estou sempre em busca dessa criação, que nunca se esgota. Não é um passatempo, é uma condição de existência, uma maneira de estar no mundo, de forma ativa e presente. Ser criativo é imperativo pra mim!
Quando era criança, estava sempre inventando. Sabe aqueles rótulos que grudam na gente: esse menino é muito inventivo! Ah, sou! Sou mesmo! Que bom! Não conseguiria viver os meus dias tendo que repetir as coisas. Aliás, a única coisa que gosto de repetir, até ficar para sempre gravado na minha cabeça é poesia! Acho tão bonito saber poesia de cor!
Criar é como fazer poesia. E pode ser poesia desenhada, pintada, contada, escrita, bordada, discursada, palestrada, esculturada, cantada, encenada e tantas, tantas outras formas que me atravessam. O problema (se é que isso seria um problema) é que quando você pode se expressar de muitas maneiras, isso às vezes é um insulto para algumas pessoas! Diga-se, pessoas mesquinhas e rasas! Deixemos essa gente de lado!
O estado de excitação que acompanha o exercício de criar é como uma descarga elétrica, que percorre todo o corpo e vai fazendo conexões das mais impensáveis. Faz brotar imagens, eclodir palavras, aparecer formas e volumes, prolongar-se em cores e pinceladas, saciar-se com o cheiro da novidade, provocar ações, movimentos e coreografias no espaço de quem usa o gesto para executar o que pode vir a ser sua assinatura.
Essa subjetivação e materialização são os polos dessa corrente, mas precisam estar circundados pela aliança volátil de uma onda chamada desafio. Só cria quem é desafiado. Pelo mundo. Pelos outros. Por si mesmo.
E tem uma benesse nisso tudo: as lacunas vão ficando preenchidas, enquanto outras vão sendo abertas. Não quero encerrar nada! Quero começar e terminar, para poder começar de novo e de novo. Não quero aprisionar nada. Quero libertar e libertar, para aprender cada vez mais como liberar do informe aquilo que pulsa e corre dentro de mim.
Assim são com os contos que identificam uma área cultural, que indicam uma geografia e sinalizam movimento e expansão. A consciência de que há um legado a ser descoberto, para que a viagem possa continuar a ocorrer, já que nunca se repetirá da mesma forma.
Foi com essa imensa potência libertadora da criação e da recriação, que cheguei ao livro “O pescador de histórias”, de Heloisa Pires Lima, ilustrado por Élon Brasil, para a editora Melhoramentos.
O livro parte da ideia de que pelos caminhos de rios caudalosos entre os continentes, há um barco colorido em travessia e há um pescador dentro dele, que vai recolhendo histórias ofertadas pela vida ribeirinha. Essa noção de infinitude e transformação, própria da criação artística, aliada ao mês de novembro, em que se fala em consciência negra, já me bastam para amar esse livro!
A primeira e admirável surpresa é estar diante da poesia em prosa. Esse pescador que vai adentrando o coração de povos e de suas histórias cotidianas ou ancestrais, pelas águas da África, vai permitindo à autora registrar no livro um texto tão bordado de imagens e sentimentos, que todo esse líquido textual se transforma em um manto para as nossas faltas. A maior delas é a necessidade de conhecermos as histórias africanas, que têm ligação direta, grande e essencial com as nossas representações culturais. Pra mim, isso é consciência negra. Consciência de todo um conjunto cultural e não apenas um dia no calendário – o 20 de novembro – para lembrar a luta de Zumbi dos Palmares (de suma importância, diga-se!) e para refletir seriamente e concretamente sobre a inserção do negro na sociedade brasileira (luta permanente, diga-se!). Conhecer as histórias, os mitos, as lendas, as fábulas de origem africanas também é uma maneira de inserção e também uma maneira de perpetuação, valorização e respeito para todas as gerações.
Heloísa Pires Lima, de forma tão contundente, traz para esse livro uma confluência de lugares e tempos. Vamos nos deparar com as imensidões, principalmente as do rio Níger, do rio Nilo Azul e suas cataratas; do cruzamento do Nilo Azul com o Nilo Branco, do lago Nakuru, do Rio Orange. É água e mais água para banhar de muita história nossa memória!
Vamos conhecer a história da princesa Yataberê, do reino de Wagadu; bem como algumas valiosas informações sobre a rainha de Sabá e a de tantos outros deuses do Nilo; as histórias que voam soltas como os flamingos em algazarra no lago Nakuru; a criação do Sol e da Lua, pelo deus Welexakaba; as menções ao jovem Jomo Kenyatta, que se tornou primeiro-ministro do Quênia; a menção aos congressos Pan-Africanos; a criação do pote de barro cozido; a beleza da história do louva-a-deus e a necessidade de dividir o alimento, a proteção para equilibrar as forças entre os homens e a natureza, e, por fim, o canto e os instrumentos como elementos fundamentais para distribuir alegria pelo mundo.
O livro é também uma aula, mas de forma poética e fluida, como a água que serve de condutora para as histórias e para os povos com que vamos fazer contato: dinka, shilluk, annuak, !kung san, falashas, kushitas, kikuyu, massai, etc.
Todas as histórias vão sendo complementadas por informações a respeito do Pescador que as ouve, presencia, recolhe, como se dois tempos transcorressem em paralelo. Dois rios a fluírem: passado e presente; realidade e imaginação; história e ficção.
As belas ilustrações de Élon Brasil, que usa o tecido como suporte, ora com cores, ora como esboços a grafite e carvão, completam a atmosfera aquática e poética do livro.
O que mais me encanta é o aspecto inesgotável de uma obra como essa! Para voltarmos e voltamos nela muitas vezes! Em distintas águas e com diferentes embarcações (em outros tempos, com outras idades). Está lá, dito para quem quiser ler qual é o segredo do Cosmos! Quer saber? Corre lá para descobrir como “enxergar a continuidade da vida”!

 

Publicado na edição de novembro de 2019

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