Artigos › 02/08/2017

Espiritualidade Mariana e o Luto

Nos dias mais difíceis de sofrimento, quando nenhuma palavra conforta e a dor é o sentimento que inunda o coração, encontrar consolo parece ser impossível. O luto causa uma sensação de vazio tão grande que mal temos força para sair desta situação.

Em cristologia, tal sentimento de esvaziamento é chamado de kênosis. É a condição de total vazio, que São Paulo chama de “aniquilamento” (cf. Fl 2,6-9) que somente Jesus viveu na sua inteireza. Mas quando a dor por morte efetiva ou morte simbólica (rompimentos, tragédias, doenças…) se abate sobre alguém, esta pessoa enlutada vive, a seu modo, uma parcela desta realidade de esvaziamento. É neste momento do viver que agradecemos a Deus por termos fé, por termos cultivado a amizade com Ele e, deste modo, por não sofrermos sozinhos!

Entre as pessoas que mais sofreram lutos desautorizados e sem empatia social, ninguém se compara a Maria, mãe de Jesus e nossa mãe. Talvez você pense nela aos pés da cruz, e faz certo porque esta imagem é emblema do sofrimento do enlutado. Mas a espiritualidade mariana lança luz sobre outros momentos de luto e de sofrimento vividos por ela, desde a gestação, a migração e a fuga, a viuvez, os trabalhos, até o cotidiano desafiador da pobreza.

Das queixas que os enlutados fazem, normalmente, além da morte em si, a angústia pela preocupação do ser amado é a mais relatada. Angústia por não saber do paradeiro, angústia pela ingratidão, angústia pela doença e risco de morte, angústia pela falta de recursos para ajudar e mudar a situação, angústia pela pessoa amada presa, angústia pela injustiça feita contra quem se ama, angústias de todas as formas e intensidades. Angústias que Maria viveu!

O sofrimento alheio não acaba com o sofrimento próprio, mas a empatia consola. Saber que outra pessoa passou por situação similar, faz com que saibamos que sofrer não é castigo, nem a morte é uma penalidade, mas efeitos colaterais do viver.

Em Maria, Nossa Senhora das Dores, vemos o sofrimento do luto; mas em Maria, Nossa Senhora dos Prazeres, vemos a resolução do luto. É a mesma Maria, em momentos humanos e humanizadores que demonstram que viver é bom, que nada é melhor que um dia após o outro quando se caminha para Deus.

A festa da Assunção de Nossa Senhora celebra o todo da vida desta que conheceu o sofrimento e que, por isso, é nossa intercessora quando estamos de luto. Mas celebra, especialmente, aquela que venceu o sofrimento e, depois da morte, viu seu Filho vivo, ressuscitado, e com ele está para sempre.

Que seja a festa da Assunção de Maria um instrumento de superação dos nossos lutos e de reforço do ânimo nas nossas lutas.

Viva Maria, aquela que viu a morte ser vencida!

A autora, colaboradora desta Revista,

é Dra. Tanatóloga e Teóloga

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